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UE se preocupa ante crescente influencia de Rússia em seu território

Diario- Lucía Abellán 18/12/2016
A propaganda e o financiamento de partidos levam a mensagem russa aos países europeus
 

Os muçulmanos estão atacando as árvores de natal na Suécia e as autoridades consideraram proibir a instalação de luzes natalinas. A Finlândia retém os filhos de russos que vivem no país nórdico e desejam retornar à Rússia. A Ucrânia está infestada de nazistas que estão apenas esperando que o visto para viajar não seja obrigatório para invadir a União Europeia (UE). Toda a Europa observa como a maré de boatos, propagandas e financiamentos de origem russa alcança uma penetração cada vez maior em seu território. Diante dos indícios de ingerências de Moscou nas eleições norte-americanas, a UE enfrenta, com preocupação, cenários semelhantes.

O passo dado pelos Estados Unidos foi determinante para que a Europa finalmente tomasse consciência de uma realidade que levava muito tempo minimizando. Se hackers russos conseguiram invadir o sistema informático do Partido Democrata com a intenção de influenciar as eleições presidenciais dos EUA, segundo a Administração de Obama, por que não fariam o mesmo na Europa? O apoio de Moscou a partidos europeus radicais, a guerra informativa e a proliferação de ciberataques compõem uma estratégia que inquieta cada vez mais Bruxelas (sede da UE).

A Alemanha, que terá eleições federais em setembro de 2017, foi a primeira a verbalizar seus temores. Os ataques cibernéticos e a desinformação "podem influenciar a campanha eleitoral", de acordo com a afirmação feita pela chanceler alemã, Angela Merkel, em novembro deste ano. O diretor do serviço de espionagem alemão, Hans-Georg Maassen, voltou a levantar essa suspeita na semana passada. E o chefe de espionagem sueco, Gunnar Karlson, também se manifestou. "A Rússia conduz, obviamente, as operações mais graves de manipulação contra a Suécia", afirmou durante uma entrevista televisiva. Sem mencionar Moscou, o responsável pelo setor do Reino Unido, Alex Younger, advertiu sobre práticas que representam "uma transgressão do processo democrático".

A Europa enfrenta um fenômeno com o qual não sabe bem como lidar. "É um dilema porque não existe reciprocidade. Enquanto a Rússia não permite a liberdade de meios de comunicação em seu país, nem o trabalho de ONGs, as organizações russas podem se instalar sem problemas nos países europeus. É uma batalha assimétrica", argumenta Michal Baranowski, diretor do escritório da German Marshall Fund em Varsóvia (Polônia), instituição que promove vínculos entre Europa e Estados Unidos. "A magnitude do problema que está emergindo é enorme", acrescenta o especialista.

Os serviços de inteligência europeus tratam de seguir a pista dessas ameaças. O centro da UE destinado a esse tipo de trabalho, o Intcen, citou em seus informes dois dos grupos de hackers supostamente ligados à Rússia: Cozy Bear e Fancy Bear, que aparecem também nas investigações norte-americanas. O sistema informático da Comissão Europeia sofreu, há várias semanas, um ataque cibernético cujo autor não foi revelado. Um alto cargo da UE afirma que essas tentativas são "a forma perfeita de atingir a Comunidade sem atacar, diretamente, nenhum país". Arremeter contra um Estado-membro poderia resultar em uma reação individual (como os Estados Unidos ameaçam fazer). No entanto, as instituições Comunitárias carecem de respostas imediatas.

Além do fenômeno visível dos cibertaques, a UE já alerta faz tempo sobre uma via de influência difícil de evitar: o financiamento russo e outros tipos de apoio destinados a partidos políticos europeus. O centro de investigação húngaro Political Capital identificou "partidos fortemente pró-russos" em até 15 nações europeias. Entre eles, figuram o Frente Nacional, de Marine Le Pen, que não oculta sua simpatia pelo presidente russo, Vladimir Putin, e tampouco os empréstimos recebidos de entidades russas. Também estão a Liga Norte, na Itália; o Jobbik, na Hungria; e os neonazistas do Aurora Dourada, na Grécia.

Sem muitos mais instrumentos à mão que elevar a voz, o Parlamento Europeu aprovou, em novembro de 2016, uma resolução "para rebater a propaganda de terceiros contra a UE". O texto dedica uma extensa seção à Rússia, e conclui: "O Kremlin financia partidos políticos e outras organizações dentro da UE com a intenção de minar a coesão política. E a propaganda do Kremlin está dirigida, diretamente, a jornalistas, políticos e pessoas concretas da União (Europeia)".

Guerras híbridas

A votação, apesar de tudo, mostrou que uma boa parte do espectro político europeu tem receio de respaldar essas mensagens. O texto recebeu 304 votos a favor (principalmente do Partido Popular Europeu e dos conservadores poloneses), 179 contra (da esquerda minoritária e muitos eurocépticos) e 208 abstenções (da maioria dos social-democratas). Os liberais se dividiram entre as três opções.

Conscientes de que as lutas do século XXI dependem mais dessas estratégias do que de ataques convencionais, os chefes de Estado e de Governo acabam de aprovar um marco de cooperação entre a UE e a OTAN cujo desafio principal são as chamadas guerras híbridas. "É um dos principais riscos e isso ainda não se percebe bem na Europa", afirma um funcionário da Comunidade familiarizado com essas táticas de desestabilização.